Movimento De Olho no
Imposto começa peregrinação pelo interior
A
professora Antonia Maria DelCampo garante: nunca mais irá às compras
com a inocência de antes. Com um ar de surpresa no rosto, afastando
e aproximando os óculos para ter certeza de que aquilo que via era
real, a professora não se conformou ao descobrir que a garrafinha
de água mineral que sempre a ajudou a enfrentar o forte calor de
São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, poderia custar
pouco mais de R$ 0,50 se não fosse a tamanha carga tributária que
recai sobre o produto, e que acaba elevando seu preço para cerca
de R$ 1,20. E esse não é um "privilégio" das garrafas de água. Todo
produto ou serviço tem um percentual do preço que chega ao consumidor,
influenciado diretamente pelos impostos. Não foi à toa que, depois
de conhecer a realidade, a professora aderiu ao movimento De Olho
no Imposto, proposta que busca transparência na cobrança do impostos
por meio da mobilização popular.
O movimento vai percorrer
outras 16 cidades do interior para coletar 1,5 milhão de assinaturas
que serão encaminhadas ao Congresso Nacional, junto a um projeto
de lei popular, para garantir que seja regulamentado o parágrafo
5º do artigo 150 da Constituição Federal. É ele que garante ao consumidor
o direito de saber quanto paga de imposto nas mercadorias e serviços.
"Não estamos aqui para dizer se a tributação sobre cada produto
é abusiva ou não. Mas para formar no cidadão a consciência de que
o imposto existe e que ele deveria retornar à sociedade como investimento
para aumentar a qualidade em transporte, saúde e educação públicos",
afirmou Guilherme Afif Domingos, presidente da Federação das Associações
Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da Associação Comercial
de São Paulo (ACSP), durante a abertura do movimento na Câmara Municipal
de São José do Rio Preto.
Ao lado do prefeito da cidade,
Edinho de Araújo (PPS), Afif Domingos conclamou todos a participarem
do movimento. E conseguiu a adesão de diversas entidades locais,
que se comprometeram a difundir a campanha entre a população. "Queremos
divulgar também a necessidade de se simplificar a legislação dos
impostos. Hoje ela é feita para confundir", disse Flávio Marques
Alves, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de Rio Preto.
Ele citou que 112 tributos compõem o sistema tributário brasileiro,
expressos em 181,8 mil artigos da constituição, que se dividem em
423,9 mil parágrafos.
O prefeito de Rio Preto também
prometeu apoio. "Vamos divulgar a idéia pela cidade. Sabemos da
importância do movimento porque sentimos seus efeitos diretamente",
disse Araújo. Ele se referia ao fato de pouca gente conhecer a forma
como os repasses do que é arrecadado são feitos. Hoje, 60% acaba
na União; 25% no Estado e 15% no município. "As pessoas moram nas
cidades, que por receberem a menor fatia do repasse, acabam apelando
para as suplementações de verba. Mas isso chega junto de acordos
políticos que estimulam a corrupção", comentou Afif Domingos.
Indignação – Se depender dos moradores de São José do Rio Preto,
o De olho no Imposto será um sucesso. A visitação ao Feirão do Imposto,
que simula um supermercado, foi intensa durante todo o dia. Quem
passava pela Praça Rui Barbosa não resistia em observar as gôndolas,
onde os produtos expostos traziam nas etiqueta quanto do preço final
é conseqüência da carga tributária. "São produtos que consumimos
no dia-a-dia. Se ao menos tivesse a certeza de que não vou enfrentar
fila na próxima vez que precisar ir a um posto de saúde ou que as
estradas não têm mais buracos, eu até concordaria com o que é cobrado.
Mas isso não acontece", disse o eletricista Manuel Rosa Pinho. O
movimento ganhou a assinatura dele também. Rumo à meta – Em Rio
Preto, a meta é colher 20 mil assinaturas. O Feirão do Imposto acontece
até sexta-feira, mas as assinaturas serão coletadas por mais um
mês. Hoje, a caravana chega a Ribeirão Preto.
Renato Carbonari
Ibelli, de São José do Rio Preto |